04 agosto 2011

Aurélio de Simoni

No início do ano de 1983 eu ensaiava o que seria meu primeiro espetáculo profissional como ator, uma idéia vinda de um curso com o Pessoal do Despertar, e que se chamava “O Homem que não foi a São Paulo”, textos do Sérgio Porto, com direção do Claudio Torres Gonzaga. Até então ouvia falar do Aurélio como um mito vivo, já naquela época, o iluminador de 9 entre 10 espetáculos, só dava ele, um nome sem rosto na minha imaginação. E eis que surge o tal Aurélio um dia pra assistir um passadão, nós nervosos e de uma inexperiência juvenil vergonhosa em todos os sentidos. Acabado o ensaio, aquele homem, já maduro e muito sério, disse em tom grave que tinha achado um horror, que nós, jovens que éramos, tínhamos obrigação de mostrar vigor e pique e que estávamos muito frouxos. E mais, que só faria a luz se daí a alguns dias visse um ensaio melhor. Dito e feito, nos retratamos internamente e daí a alguns poucos dias estávamos todos mais disponíveis pro trabalho, suando a camisa, como deve ser. E ele fez a luz, ou meljhor, a luz se fez, pois foi uma lição, a primeira, da qual nunca esqueci e agradeço a ele desde então: Suar a camisa, não economizar e não fazer por menos a única coisa que me proponho a fazer, a trabalhar como homem.

Trabalhamos juntos desde então em dezenas de espetáculos, uns mais memoráveis do que outros, lembro muito de uma luz linda que ele fez, toda branca, pro “Tá Ruço no Açougue”, versão clown do Santa Joana dos Matadouros , do Brecht, em versão do Antonio Pedro, título dado pelo saudoso e imprescindível Nelson Dantas, meu colega na peça.
Ao longo desses anos vi Aurélio dar cria, eu olho em volta e vejo que os iluminadores mais inseridos no mercado hoje em dia aprenderam o ofício com ele. Montando, operando, limpando refletores, virando noite encima de escada e de manhã comendo pão com mortadela e café em copo de plástico.
De uma generosidade extrema, tive mais mostras disso nas duas oportunidades que dirigi e o convidei pra assinar a luz. A primeira, “Conversinha Mineira”, coletânea de contos do Fernando Sabino que fizemos em salas de aula, pátios, praças e o escambau, e pra coroar tanto empenho resolvemos ousar fazer uma temporada num teatrinho no Museu da República, sem dinheiro, sem nada, só com a coragem. Aurélio veio correndo, fez uma luz linda, viu que não tínamos de onde tirar dinheiro e pegou fios e bocais do carro dele, praticamente patrocinou a montagem. No dia da estréia ele, que tinha outro compromisso agendado, de um espetáculo que, este sim, pagava e bem, me disse que não estaria presente, mas que estava tudo pronto, e que o operador daria conta. Segundo sinal, eu no balcão com meu caderninho, vejo ele entrar esbaforido e me procurar com o olhar, deu um sorriso e se fez entender de longe que tinha conseguido deixar alguém lá na outra peça e vir, para nossa calma e para minhas lágrimas imediatas e súbita incompreensão: - Por que esse cara gosta tanto de mim, do teatro, do ofício, da vida?
Na minha outra direção, “Alcovas de Cetim” de Regiana Antonini, um delicioso solo da talentosa Ines Viana, esteve sempre presente, divertindo-se e nos divertindo, fez uma luz linda, re-montou em outro teatro, com o empenho e a amizade de sempre.
Professor de todos nós, amigo extremo, camarada de um bom humor invejável, carinhoso, honrado, ético, os predicados não acabam. Aurélio é uma das pessoas mais generosas que conheci em toda a minha vida e que quero ter sempre por perto, trabalhando, gargalhando, ralando e se divertindo, que é o sentido desse ofício que ele entende tão bem e faz dele uma das pessoas mais importantes da tribo. Vida longa, Mestre, conto com você!

Tonico Pereira

Fui apresentado ao Tonico pelo meu tio Zé Medeiros, fotógrafo do cinema nôvo, autor de insesquecíveis luzes e também figura cheia de histórias. Eu devia ter meus 16 anos, menino apaixonado pelo teatro, e frequentador com meu tio do Posto 9, em Ipanema, a praia no auge. Eles ficavam se sacaneando mutuamente e era muito engraçado de assistir. Enquanto o Tonico ia pra agua meu tio distribuía os cigarros dêle, voce imagina, já naquela época fazendo campanha para que ele parasse ou ao menos fumasse menos. Ao mesmo tempo quando as fãs vinham pedir autógrafo pra ele, ele apontava meu tio à distância e dizia que aquêle era o Jofre Soares. O Zé tinha cabelos brancos mas não lembrava o Jofre nem de longe. Mesmo assim quando alguma menina lhe abordava pedindo "um autógrafo do seu Jofre", o Zé já sabia e abria o verbo: "Aquele filho da puta do Tonico chegou na praia!"

Contam que anos depois na filmagem de Memórias do Cárcere que o Zé era o fotógrafo, eles filmando numa penitenciária com todas as dificuldades do mundo, o Tonico pedia pra que o Zé tomasse conta dos seus cigarros e era só ele dar as costas o Zé distribuía os cigarros pela figuração. No dia seguinte o Tonico se esquecia do ocorrido e acontecia tudo de nôvo.
Assisti a vários espetáculos, trabalhos inesquecíveis como "Afinal, uma mulher de negócios", no Teatro dos 4, onde ele embolachava a Renata Sorrah em cena e parece que isso rendia os maiores problemas. "O Último dos Nukupirus", no Teatro Rival, uma revista irreverente do Gugu Olimecha, uma baixaria hilária com cenas de nudez das vedetes, ingênuas demais para os dias de hoje.
Papa Highirte, do Vianinha, e tantos outros. Quando fui ver Bent, ele se machucou em cena carregando as pedras de verdade que compunham o cenário e o público, angustiado acompanhou o rastro de sangue que ele foi deixando no palco até o fim do espetáculo, e, nos agradecimentos veio praticamente carregado e foi ovacionado como um herói.
Anos 80, Baixo Gávea, inúmeras vezes tomávamos umas e outras até as tantas, e lembro do Paulão, querido ator falecido ano passado, chamando ele de Zeca Diabo mirim (fazendo menção ao Zé Carneiro) , para incitar suas blasfêmeas que duravam horas.
Ele tinha uma FIAT conversível que ele tinha comprado do Tarcísio Meira que - ele nega - mas tinha um enorme furo no chão e quando chovia parecia um chafariz. Ele namorava a Bia Lessa e muitas vêzes vi ele passando naquele carro, falando e gesticulando, o que dava a impressão que ele estava falando sozinho, na verdade a Bia estava ao lado dele, mas de tão pequenina não dava pra ser vista.
Um dia arranjou na noite uma namorada japonesa, foi de porre pra casa dela e acordou, óbvio, de ressaca, no dia seguinte, se deparou com um copo d´agua na cabeceira. Pensou - "que maravilha, ela sacou que eu acordaria com sede e botou essa agua aí pra mim" Bebeu a agua, dormiu de nôvo e acordou novamente horas depois com a japonesa perguntando se ele tinha visto as lentes de contato que estavam no copo. Ele respondeu prontamente: "não, mas são gelatinosas ou de vidro?" Ela disse "gelatinosas", ele relaxou e disse" ah, daqui a pouco voce encontra", e voltou a dormir tranquilo por não ter engolido lentes de vidro, pois bebera ! as lentes da japa!
Histórias de cinema me lembro de outras. Quando filmava A República dos Assassinos do Miguel Faria, um dia chegou cedo no set e amarrou a própria cara numas cordas grossas que encontrou por ali e cada um que chegava achava aquilo muito estranho, do tipo "é melhor não mexer, o cara tá muito doido hoje." O próprio Miguel foi alertado da condição daquele maluco todo amarrado, e na hora que foi inevitável chamaram ele pra filmar. Eis que a cena era dêle acordando e as marcas que as cordas deixaram na cara dêle eram prefeitas pra situação do personagem todo marcado depois de uma noite de sono. Ele estava certo, ponto pro Tonico!
Com Babenco nos "Campos do senhor" - como é mesmo o nome certo desse filme? - rodado na Amazônia, produção internacional, onde ele fazia uma participação, consta que no dia de filmar, ele apareceu com o que tinha preparado: um personagem gago, fungando e babando. No que Babenco disse com sotaque inconfundível para passar a fazer parte dos autos do cinema brasileiro: - Tonico: Ou baba, ou funga, ou gaga, os tres não!
Ele por medo de avião na ocasião desse filme foi do Rio pra Belém de carro. Lá comprou outro carro e contratou um sujeito sem um braço pra vir pro Rio trazendo o carro que tinha comprado e esse sujeito foi preso no caminho por ser irregular que dirigisse numa auto-estrada sem braço. Coisas que só acontecem com o Tonico.
No início dos anos 90 eu trabalhava com Aderbal Freire-Filho , tínhamos uma companhia de teatro que se chamava Centro de Demolição e construção do espetáculo. Ocupávamos o Teatro Glaucio Gill em Copacabana após uma obra difícil e demorada mas possível graças a sensibilidade e inteligência da Aspásia Camargo, que era Secertária de Cultura e nos amadrinhou naquele momento. Dias férteis, muitas peças, muitos visitantes, grupos do mundo todo, um verdadeiro centro de teatro como nunca tinha tido no Rio e nunca mais voltou a ter. Uma noite após polêmicas de que nosso prazo naquele teatro estaria acabando, um rato molhado de nome Jesus Chediak, na calada da noite, trocou a fechadura do teatro com todo nosso material guardado lá dentro impossibilitando nossa entrada no teatro. Foi uma comoção, fizemos vigília durante 14 noites na calçada do teatro, e iluminados apenas pela barraca de pipoca de nosso saudoso amigo pipoqueiro Tião, recebemos visitas de solidariedade de Deus e o mundo, Lula, Betinho, o Boff, Abujamra, Zé Celso, todo mundo esteve por ali solidários a nós e arrecadamos mais de 500 assinaturas da classe que estava do nosso lado. Tonico, sempre presente e revoltado com o teatro fechado, numa dessas noites, de porre, se arremessou à porta de madeira para arrombá-la, aos gritos. Foi um Deus nos acuda, pegaram ele na marra, todo mundo naquela de " vamos ser políticos, uma atitude dessa não valhe a pena, "etc.
No dia seguinte, pileque curado, lá veio o Tonico de banho tomado com quilos, eu disse quilos ! de jornal que ele tinha comprado e muitas, eu disse muitas ! velas. Gastou uma grana com isso, trabalhou o dia inteiro e fez um muro de jornal que representava algo que só ele pode explicar, e à noite aquela muralha de jornal e inúmeras velas acesas davam um contôrno pop, inusitado, colocava em outra dimensão nosso protesto. Agora em Sampa me disse, que passados 15 anos ele ainda tem guardadas algumas velas que comprou naquela ocasião. Incrivelmente estamos hoje trabalhando juntos eu, Tonico, Aderbal, e imagino que o tal Chediak que não tem nada de Jesus e não sei que fim levou, deva estar trocando fechaduras menos importantes na calada da noite, rato que é.

21 setembro 2010

Academia de tênis (Brasília existe?) Rio, 20/09/2010

Fui com minha galera do teatro fazer o Púcaro Búlgaro em Brasília, pela enésima vez viajando juntos e dessa vez cumprindo compromissos com patrocínio já há tempos estabelecido.

Nos enfiaram numa pocilga de nome “Academia de Tênis” que se antes soava como um resort chique e aprazível mostrou-se ser um dos mais desagradáveis lugares onde já estive. Casinhas conjuminadas de arquitetura americanóide e um ar assaz decadente.

De cara na casinha que estava reservada pra mim e pra minha gata (que por azar foi comigo esperando outra coisa), uma enorme barata nos esperava num ambiente mofado e sujo com uma colcha manchada num ambiente que parecia não ter ventilação há anos.

Mudamos, claro, de casinha, mas mesmo assim, feliz não fiquei.

Toalhas esfiapadas, banheira encardida, paredes precisando de pintura, ar condicionado barulhento e pias pingando deram o contorno de um cenário de horror, mas mesmo assim ainda foi o de menos.

Minha gata passou mal depois de um antipasto sinistro e pela manhã (depois de uma noite não dormida) comeu tão somente uma banana no café da manhã e depois me dei conta que me cobraram vinte e cinco reais pelo fato dela não estar na lista dos artistas-hóspedes e sim como minha acompanhante. Um inferno. Mas, paciência, Brasília.

Como se não bastasse deu-se o pior. Na minha ausência de duas horas para almoçar uma camareira mal intencionada e bandida revirou minha bolsa que deixei no hotel e fez uma enorme bagunça nas minhas coisas pessoais, deixando fechos abertos pela metade, papéis amassados, minha carteira aberta e minha nécessaire também uma zona. Perplexo, pedi pra falar com o gerente, que me disse que ia tomar providências mas calou-se, mais tarde já tinha ido “descansar” segundo a atendente e nunca mais me deu um parecer sobre o ocorrido.

Fico pensando se em Brasília essa é a ética vigente, que perpassa por todos, todas as classes, a permissão é geral, a bandidagem é regulalizada e eu, pobre e honesto cidadão carioca não reconhece como razoável. Talvez eu seja exigente demais, mas fui educado num tempo e por pessoas que me ensinaram que o certo era cada um fazer o seu e honestidade não era só uma palavra mas tinha um sentido por trás.

Adeus, Brasília, gerente, camareira, barata e mofo, o que na minha cabeça, a partir de agora, passou a ser tudo uma coisa só.

01 dezembro 2009

Garcia Lorca!

CACIDA DAS POMBAS ESCURAS


Pelas ramas do loureiro
vão duas pombas escuras.
Uma era o sol,
a outra a lua.
“Vizinhas”, disse-lhes,
“onde está minha sepultura?”
“Em minha cauda”, disse o sol.
“Em minha garganta”, disse a lua.
E eu que estava caminhando
com terra pela cintura
vi duas águias de neve
e uma moça despida.
Uma era a outra
e a moça era nenhuma.
“Aguiazinhas”, disse-lhes,
“onde está minha sepultura?”
“Em minha cauda”, disse o sol.
“Em minha garganta”, disse a lua.
Pelas ramas do loureiro
vi duas pombas despidas.
Uma era a outra
e as duas eram nenhuma.

13 agosto 2008

Plínio Marcos sobre o ator

O ATOR por Plínio Marcos

Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida.
Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que por desencanto ou medo se sujeita, e inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.
Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator.
O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de suas personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.
Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator, que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter – não é o dinheiro, não são os aplausos – é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.

04 julho 2007

Progresso?



Metrô em Ipanema, oba!

Mas a cena que vi da janela, todas as árvores detonadas numa manhã-pela-tarde, me fez ficar pensando quanto tempo vai levar pros bem-te-vis voltarem.

Progresso?

Queremos todos o metrô em Ipanema, ha anos. Mas a destruição de todas as árvores da minha rua num mesmo dia me pego na janela pensando que agora o bem-te-vi vai demorar a aparecer. Paciência, Iracema, paciência.

13 novembro 2006

mais postes, velha obsessão.


Carta de Rubens Corrêa aos alunos da CAL em aula inaugural, 1984

Recado aos jovens da CAL
Rubens Corrêa

Fui convidado para conversar com vocês sobre o ator; sei que muitos aqui jamais representaram, e outros deram apenas os primeiros passos neste caminho labiríntico que é o mundo da interpretação. É uma tarefa que exige de mim sensibilidade e coragem; acho uma grande responsabilidade falar aos jovens, e é com muita emoção e prazer que passo adiante as humildes sementes do meu trabalho artístico, com a esperança de que alguma utilidade possa ser encontrada nelas e que de alguma maneira elas possam lhes tornar a caminhada menos solitária e mais solidária, na medida em que esta receita muito pessoal provoque dúvidas e reconsiderações, ou toque o sagrado dentro de cada um de vocês, ou reacenda aquela esperança cega que Prometeu garantiu ser a conquista mais urgente para a sobrevivência do homem neste planeta.
O grande poeta e dramaturgo alemão Büchner escreveu numa cena de sua peça "Woyseck": "Cada ser humano é um abismo e a gente tem vertigens quando se debruça sobre um deles."
Acho que nós atores somos duplamente esse abismo-espelho: como seres humanos e como artistas. Nossa missão é provocar vertigem e o revisionamento do abismo dentro de cada espectador, para que depois de cada mergulho em nossos personagens-propostas essas pessoas pensem, se emocionem, compreendam e amem com nova e maior intensidade.
Eu, Rubens Corrêa, ator e artista de teatro, vinte e oito anos de profissão, e séculos e mais séculos de um longo período não sei onde, ofereço a vocês com apaixonada humildade o meu aprendizado nesta caminhada em cima das brasas sem se queimar que é a condição necessária para poder representar e viver com algum significado neste nosso bizarro país sul-americano.(...)

O CÁLICE
Representar para mim é a possibilidade que me foi dada de me comunicar com o meu semelhante através de uma troca de idéias, imagens, palavras, gestos e emoções. Um divertido, fascinante, e muitas vezes cruel jogo que mistura ficção e realidade, consciente e inconsciente, sagrado e profano, amor e ódio, vida e morte. Uma Paixão.
Através dos anos venho elaborando em cima das tábuas o meu trabalho, tentando sempre o difícil equilíbrio entre as conquistas técnicas e a simplicidade da execução. Aqueles instantes, todas as noites, em que represento um papel, são sempre os melhores momentos do meu dia. Isso quer dizer que levo para o palco meus sentimentos, minha idéia, minhas alegrias, meus abismos, meu horror e minha luz. Diariamente filtro essas emoções através das necessidades de cada personagem, e recebo de volta para mim mesmo uma nova compreensão de meus problemas - e acrescento ao personagem um novo enriquecimento conseguido "à quente", quer dizer, arrancado de dentro de mim mesmo.
Com o correr dos anos fui aprendendo a me observar como artista e ser humano, e fui tentando aproveitar em meus desenhos interpretativos a linguagem interior de minha vivência pessoal, para conseguir assim essa difícil união entre arte e vida, que foi sempre a minha grande aspiração.
Sempre acreditei que cada ator traz consigo um material fantástico, inimitável e único, muito difícil de ser conservado e desenvolvido nesta nossa era brutalizada e massificada.
É um cálice de cristal interior, que deve ser preservado e defendido através de muitos terremotos, muita contrariedade, muita decepção e sensação de abandono, mas com momentos também de enorme luminosidade que quando acontecem recompensam o artista e engrandecem o ser humano.
Cada ator é único e inimitável se ele mergulha com honestidade em si mesmo, e retrata o seu semelhante com generosidade, verdade e paixão. "Somos feitos da essência com que os sonhos são feitos" escreveu Shakespeare, e essa é a melhor definição que conheço sobre o mistério da representação.

O CAVALO
Cada ator tem obrigação de zelar e desenvolver o seu instrumental – sua voz, seu corpo: seu cavalo. Devemos transformar nosso corpo num grande arquivo de imagens com possibilidades de serem utilizadas em nossos futuros personagens; nossa voz deve poder miar, rugir, gemer, uivar – nossas mãos podem ser galhos de árvores, garras de feras, folhas secas ao vento – nossos pés, colunas de um templo, patas de animais. Nossos olhos devem poder reproduzir o enigma do olhar da esfinge, e a clareza cristalina de um poema de Brecht.
E mais, devemos nos preparar para poder receber com artística mediunidade a alma do mundo, as grandes interrogações do nosso tempo, a voracidade deste universo em constante transformação.
Devemos ser suficientemente fortes para poder reproduzir simultaneamente a maravilha e o horror do ser humano, a criatividade e a autodestrutividade de nós todos, homens, através desta difícil caminhada da vida.
O nosso cavalo deve então se preparar para poder assumir todas estas formas, e por isso ele tem de ser constantemente reabastecido e renovado.
O cavalo é também o estimulador de nossa energia, o conservador de nosso entusiasmo e de nossa fé; quando as crises vierem (e não tenham dúvida de que elas virão), nada melhor do que trabalhar na fortificação do cavalo, porque no mínimo estaremos crescendo durante a crise, estaremos trabalhando e temperando novas energias, adquirindo novas técnicas, novos conhecimentos. Podem ter certeza de que um bom cavalo torna o ator indestrutível.

O FOGO
O fogo através do tempo sempre foi o símbolo vivo da fé, do entusiasmo e da rebeldia; mantê-lo aceso dentro de nós é também um trabalho para a vida inteira. O fogo nasce de um estado de curiosidade natural e instintivo e pode ser desenvolvido através da conquista progressiva de uma cultura geral, de uma observação apaixonada da história do homem, da história de todas as artes, da emocionante história do teatro – e um profundo sentimento de observação do ser humano – aqueles para quem realizaremos nossas mágicas, o nosso público. Esse fogo interno, uma espécie de grande rol central de energia e fé, é uma grande defesa contra a acomodação, e me parece ser a grande mola propulsora da criatividade; devemos estar sempre atentos aos seus chamados, e é preciso não deixar nunca, custe o que custar, esse fogo esmorecer, porque, caso isso aconteça, seremos os artífices de uma arte morta, sonâmbula, inútil, feia e resignada.

O MENINO
A recuperação da liberdade da infância através da vida adulta foi sempre uma das minhas metas; a criança é uma fonte incrível de informação artística - e a criança que nós fomos recuperada através do nosso lado lúdico tão atrofiado pelo correr dos anos – pode nos servir de guia, mas um guia muito especial, que caminha alegre e despreocupado, que sabe descobrir o mágico dentro do cotidiano, intuitivamente
Um grande exemplo da presença do menino dentro de um artista está na figura e na obra do pintor Pablo Picasso. "Eu não procuro, eu acho" afirmava o grande pintor. E essa fala denuncia o menino que Picasso levava dentro de si, que pintava cerâmica usando como base para o desenho a espinha do peixe que tinha comido no almoço, ou fazia fantástica escultura aproveitando uma roda velha e quebrada de uma bicicleta encontrada na estrada durante seu passeio matinal. O menino traz alegria e descompromisso racional para o trabalho artístico. No Passeio Público do Rio de Janeiro tem um menino-anjo esculpido num bebedouro (se não me engano de Mestre Valentim) com a seguinte legenda: "Sou útil, inda brincando". Essa é a lei e a sabedoria dos meninos.
Acho que preservando o cálice, domando o cavalo, estimulando o fogo e soltando o menino, o artista está preparado para viver e criar uma vida bela e uma obra útil para a coletividade.

* Aula inaugural da Cal (Casa das Artes de Laranjeiras) – Rio de Janeiro (RJ), em 12 de março de 1984. Reproduzida de uma apostila do autor.

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Querido Cândido,lendo este belíssimo texto de nosso mestre vieram à minha cabeça muitaslembranças... Que delícia! Hoje essas palavras fazem um enorme sentido. Hojeeu sinto que as compreendi. E penso... Ainda bem que perseveramos!Beijos e o carinho da amiga,Patrícia Pillar.

11 outubro 2006