04 agosto 2011

Aurélio de Simoni

No início do ano de 1983 eu ensaiava o que seria meu primeiro espetáculo profissional como ator, uma idéia vinda de um curso com o Pessoal do Despertar, e que se chamava “O Homem que não foi a São Paulo”, textos do Sérgio Porto, com direção do Claudio Torres Gonzaga. Até então ouvia falar do Aurélio como um mito vivo, já naquela época, o iluminador de 9 entre 10 espetáculos, só dava ele, um nome sem rosto na minha imaginação. E eis que surge o tal Aurélio um dia pra assistir um passadão, nós nervosos e de uma inexperiência juvenil vergonhosa em todos os sentidos. Acabado o ensaio, aquele homem, já maduro e muito sério, disse em tom grave que tinha achado um horror, que nós, jovens que éramos, tínhamos obrigação de mostrar vigor e pique e que estávamos muito frouxos. E mais, que só faria a luz se daí a alguns dias visse um ensaio melhor. Dito e feito, nos retratamos internamente e daí a alguns poucos dias estávamos todos mais disponíveis pro trabalho, suando a camisa, como deve ser. E ele fez a luz, ou meljhor, a luz se fez, pois foi uma lição, a primeira, da qual nunca esqueci e agradeço a ele desde então: Suar a camisa, não economizar e não fazer por menos a única coisa que me proponho a fazer, a trabalhar como homem.

Trabalhamos juntos desde então em dezenas de espetáculos, uns mais memoráveis do que outros, lembro muito de uma luz linda que ele fez, toda branca, pro “Tá Ruço no Açougue”, versão clown do Santa Joana dos Matadouros , do Brecht, em versão do Antonio Pedro, título dado pelo saudoso e imprescindível Nelson Dantas, meu colega na peça.
Ao longo desses anos vi Aurélio dar cria, eu olho em volta e vejo que os iluminadores mais inseridos no mercado hoje em dia aprenderam o ofício com ele. Montando, operando, limpando refletores, virando noite encima de escada e de manhã comendo pão com mortadela e café em copo de plástico.
De uma generosidade extrema, tive mais mostras disso nas duas oportunidades que dirigi e o convidei pra assinar a luz. A primeira, “Conversinha Mineira”, coletânea de contos do Fernando Sabino que fizemos em salas de aula, pátios, praças e o escambau, e pra coroar tanto empenho resolvemos ousar fazer uma temporada num teatrinho no Museu da República, sem dinheiro, sem nada, só com a coragem. Aurélio veio correndo, fez uma luz linda, viu que não tínamos de onde tirar dinheiro e pegou fios e bocais do carro dele, praticamente patrocinou a montagem. No dia da estréia ele, que tinha outro compromisso agendado, de um espetáculo que, este sim, pagava e bem, me disse que não estaria presente, mas que estava tudo pronto, e que o operador daria conta. Segundo sinal, eu no balcão com meu caderninho, vejo ele entrar esbaforido e me procurar com o olhar, deu um sorriso e se fez entender de longe que tinha conseguido deixar alguém lá na outra peça e vir, para nossa calma e para minhas lágrimas imediatas e súbita incompreensão: - Por que esse cara gosta tanto de mim, do teatro, do ofício, da vida?
Na minha outra direção, “Alcovas de Cetim” de Regiana Antonini, um delicioso solo da talentosa Ines Viana, esteve sempre presente, divertindo-se e nos divertindo, fez uma luz linda, re-montou em outro teatro, com o empenho e a amizade de sempre.
Professor de todos nós, amigo extremo, camarada de um bom humor invejável, carinhoso, honrado, ético, os predicados não acabam. Aurélio é uma das pessoas mais generosas que conheci em toda a minha vida e que quero ter sempre por perto, trabalhando, gargalhando, ralando e se divertindo, que é o sentido desse ofício que ele entende tão bem e faz dele uma das pessoas mais importantes da tribo. Vida longa, Mestre, conto com você!

Tonico Pereira

Fui apresentado ao Tonico pelo meu tio Zé Medeiros, fotógrafo do cinema nôvo, autor de insesquecíveis luzes e também figura cheia de histórias. Eu devia ter meus 16 anos, menino apaixonado pelo teatro, e frequentador com meu tio do Posto 9, em Ipanema, a praia no auge. Eles ficavam se sacaneando mutuamente e era muito engraçado de assistir. Enquanto o Tonico ia pra agua meu tio distribuía os cigarros dêle, voce imagina, já naquela época fazendo campanha para que ele parasse ou ao menos fumasse menos. Ao mesmo tempo quando as fãs vinham pedir autógrafo pra ele, ele apontava meu tio à distância e dizia que aquêle era o Jofre Soares. O Zé tinha cabelos brancos mas não lembrava o Jofre nem de longe. Mesmo assim quando alguma menina lhe abordava pedindo "um autógrafo do seu Jofre", o Zé já sabia e abria o verbo: "Aquele filho da puta do Tonico chegou na praia!"

Contam que anos depois na filmagem de Memórias do Cárcere que o Zé era o fotógrafo, eles filmando numa penitenciária com todas as dificuldades do mundo, o Tonico pedia pra que o Zé tomasse conta dos seus cigarros e era só ele dar as costas o Zé distribuía os cigarros pela figuração. No dia seguinte o Tonico se esquecia do ocorrido e acontecia tudo de nôvo.
Assisti a vários espetáculos, trabalhos inesquecíveis como "Afinal, uma mulher de negócios", no Teatro dos 4, onde ele embolachava a Renata Sorrah em cena e parece que isso rendia os maiores problemas. "O Último dos Nukupirus", no Teatro Rival, uma revista irreverente do Gugu Olimecha, uma baixaria hilária com cenas de nudez das vedetes, ingênuas demais para os dias de hoje.
Papa Highirte, do Vianinha, e tantos outros. Quando fui ver Bent, ele se machucou em cena carregando as pedras de verdade que compunham o cenário e o público, angustiado acompanhou o rastro de sangue que ele foi deixando no palco até o fim do espetáculo, e, nos agradecimentos veio praticamente carregado e foi ovacionado como um herói.
Anos 80, Baixo Gávea, inúmeras vezes tomávamos umas e outras até as tantas, e lembro do Paulão, querido ator falecido ano passado, chamando ele de Zeca Diabo mirim (fazendo menção ao Zé Carneiro) , para incitar suas blasfêmeas que duravam horas.
Ele tinha uma FIAT conversível que ele tinha comprado do Tarcísio Meira que - ele nega - mas tinha um enorme furo no chão e quando chovia parecia um chafariz. Ele namorava a Bia Lessa e muitas vêzes vi ele passando naquele carro, falando e gesticulando, o que dava a impressão que ele estava falando sozinho, na verdade a Bia estava ao lado dele, mas de tão pequenina não dava pra ser vista.
Um dia arranjou na noite uma namorada japonesa, foi de porre pra casa dela e acordou, óbvio, de ressaca, no dia seguinte, se deparou com um copo d´agua na cabeceira. Pensou - "que maravilha, ela sacou que eu acordaria com sede e botou essa agua aí pra mim" Bebeu a agua, dormiu de nôvo e acordou novamente horas depois com a japonesa perguntando se ele tinha visto as lentes de contato que estavam no copo. Ele respondeu prontamente: "não, mas são gelatinosas ou de vidro?" Ela disse "gelatinosas", ele relaxou e disse" ah, daqui a pouco voce encontra", e voltou a dormir tranquilo por não ter engolido lentes de vidro, pois bebera ! as lentes da japa!
Histórias de cinema me lembro de outras. Quando filmava A República dos Assassinos do Miguel Faria, um dia chegou cedo no set e amarrou a própria cara numas cordas grossas que encontrou por ali e cada um que chegava achava aquilo muito estranho, do tipo "é melhor não mexer, o cara tá muito doido hoje." O próprio Miguel foi alertado da condição daquele maluco todo amarrado, e na hora que foi inevitável chamaram ele pra filmar. Eis que a cena era dêle acordando e as marcas que as cordas deixaram na cara dêle eram prefeitas pra situação do personagem todo marcado depois de uma noite de sono. Ele estava certo, ponto pro Tonico!
Com Babenco nos "Campos do senhor" - como é mesmo o nome certo desse filme? - rodado na Amazônia, produção internacional, onde ele fazia uma participação, consta que no dia de filmar, ele apareceu com o que tinha preparado: um personagem gago, fungando e babando. No que Babenco disse com sotaque inconfundível para passar a fazer parte dos autos do cinema brasileiro: - Tonico: Ou baba, ou funga, ou gaga, os tres não!
Ele por medo de avião na ocasião desse filme foi do Rio pra Belém de carro. Lá comprou outro carro e contratou um sujeito sem um braço pra vir pro Rio trazendo o carro que tinha comprado e esse sujeito foi preso no caminho por ser irregular que dirigisse numa auto-estrada sem braço. Coisas que só acontecem com o Tonico.
No início dos anos 90 eu trabalhava com Aderbal Freire-Filho , tínhamos uma companhia de teatro que se chamava Centro de Demolição e construção do espetáculo. Ocupávamos o Teatro Glaucio Gill em Copacabana após uma obra difícil e demorada mas possível graças a sensibilidade e inteligência da Aspásia Camargo, que era Secertária de Cultura e nos amadrinhou naquele momento. Dias férteis, muitas peças, muitos visitantes, grupos do mundo todo, um verdadeiro centro de teatro como nunca tinha tido no Rio e nunca mais voltou a ter. Uma noite após polêmicas de que nosso prazo naquele teatro estaria acabando, um rato molhado de nome Jesus Chediak, na calada da noite, trocou a fechadura do teatro com todo nosso material guardado lá dentro impossibilitando nossa entrada no teatro. Foi uma comoção, fizemos vigília durante 14 noites na calçada do teatro, e iluminados apenas pela barraca de pipoca de nosso saudoso amigo pipoqueiro Tião, recebemos visitas de solidariedade de Deus e o mundo, Lula, Betinho, o Boff, Abujamra, Zé Celso, todo mundo esteve por ali solidários a nós e arrecadamos mais de 500 assinaturas da classe que estava do nosso lado. Tonico, sempre presente e revoltado com o teatro fechado, numa dessas noites, de porre, se arremessou à porta de madeira para arrombá-la, aos gritos. Foi um Deus nos acuda, pegaram ele na marra, todo mundo naquela de " vamos ser políticos, uma atitude dessa não valhe a pena, "etc.
No dia seguinte, pileque curado, lá veio o Tonico de banho tomado com quilos, eu disse quilos ! de jornal que ele tinha comprado e muitas, eu disse muitas ! velas. Gastou uma grana com isso, trabalhou o dia inteiro e fez um muro de jornal que representava algo que só ele pode explicar, e à noite aquela muralha de jornal e inúmeras velas acesas davam um contôrno pop, inusitado, colocava em outra dimensão nosso protesto. Agora em Sampa me disse, que passados 15 anos ele ainda tem guardadas algumas velas que comprou naquela ocasião. Incrivelmente estamos hoje trabalhando juntos eu, Tonico, Aderbal, e imagino que o tal Chediak que não tem nada de Jesus e não sei que fim levou, deva estar trocando fechaduras menos importantes na calada da noite, rato que é.